Os Três
Sarah Lotz
ISBN: 9788580412697
Tradutor: Alves Calado
Ano: 2014
Páginas: 400
Editora: Arqueiro
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Quinta-Feira Negra. O dia que nunca será esquecido. O dia em que quatro aviões caem, quase no mesmo instante, em quatro pontos diferentes do mundo. Há apenas quatro sobreviventes. Três são crianças. Elas emergem dos destroços aparentemente ilesas, mas sofreram uma transformação. A quarta pessoa é Pamela May Donald, que só vive tempo suficiente para deixar um alerta em seu celular: Eles estão aqui. O menino. O menino, vigiem o menino, vigiem as pessoas mortas, ah, meu Deus, elas são tantas... Estão vindo me pegar agora. Vamos todos embora logo. Todos nós. Pastor Len, avise a eles que o menino, não é para ele... Essa mensagem irá mudar completamente o mundo. 

Livy, administradora do blog No Mundo dos Livros, fã de livros e filmes de terror, concordou em falar sobre o tão aguardado e polêmico livro "Os Três" e o que sentiu com a leitura. O relato/ desabafo que você vai ver abaixo se encontra na íntegra de nossa conversa iniciada em 28 de Maio de 2014.

O que achei da leitura de Os Três? Mesmo depois de um bom tempo do término da leitura eu ainda me pego, às vezes, olhando para o nada, pensativa. Confesso que Os Três foi uma leitura que me causou uma gama de emoções, e ainda causa certa sensação de desconforto. Na verdade, se pudesse resumir o livro em uma só palavra, seria: perturbador.

Sim, por diversos motivos a leitura de Os Três foi perturbadora. Não se trata de um livro de terror, propriamente dito, mas causa, em alguns momentos, o impacto de um livro digno do gênero. Mas, mesmo escrevendo esta resenha, ainda me encontro em um limiar, onde não sei ao certo se amei ou odiei o livro. Ele teve este efeito em mim. Não consegui gostar dele ao todo, mas ao mesmo tempo, não consigo classificá-lo como horrível, pois posso dizer que ele tem um certo ar genial. E tem cenas de arrepiar, passagens realmente surpreendentes. Em muitos momentos tive vontade de abraçar a autora, e em outros de dizer: “I hate you, Sarah Lotz”.

Durante toda a leitura me senti na corda bamba, em que, dependendo do final do livro, eu cairia para o lado em que eu o amaria, ou do lado em que o odiaria. Mas, qual é a minha surpresa, ao termina-lo e continuar na corda bamba!? Total! Não foi uma leitura fácil e demorei um pouco para terminá-lo (mais do que queria e pretendia), mas também não foi uma leitura totalmente chata e/ou horrível. Então porque eu demorei em ler? Bom, uma coisa que você deve saber logo de cara é que a história do livro é contada de uma forma diferente. Sarah Lotz utilizou do estilo de narrativa onde podemos encontrar relatos dos personagens ao invés de uma narrativa linear em terceira ou primeira pessoa. Estes relatos muitas vezes se tornaram repetitivos e em alguns momentos desnecessários, e achei alguns relatos realmente monótonos. Por isso demorei um pouco para ler.

O que esperar da narrativa? O livro é dividido em partes: Queda, Conspiração e Sobreviventes. Ao todo são dez partes, intercaladas, que mostram a passagem do tempo entre as conspirações mirabolantes e o que acontece com as crianças sobreviventes Hiro, Bobby e Jess. O livro é narrado todo com relatos, transcrições, trechos de e-mails e jornais, bate-papos, etc. lembrando o estilo de um documentário. Elspeth Martins é jornalista investigativa e é a responsável por este apanhado de fatos que compõem o livro Da queda à conspiração, um livro polêmico que mostra "a verdade" sobre Os Três.

O livro se inicia com o avião que cai na "floresta dos suicidas" em Aokigahara, no Japão, onde a Pamela May Donald acorda em meio aos destroços do acidente, quase morrendo, e tem um último pensamento de deixar um isho (mensagem) onde diz: O menino, vigiem o menino, vigiem as pessoas mortas, ah, meu Deus, elas são tantas... Estão vindo me pegar agora. Vamos todos embora logo. Todos nós. Pastor Len, avise eles que o menino, não é para ele... e a mensagem acaba. Você já pode imaginar o furor que esta mensagem causou? Pois bem, é muito pior do que você pode sequer imaginar.

Não só no Japão aconteceu um acidente, mas em outros três países também aconteceram terríveis acidentes de avião, e todos ao mesmo tempo. E o mais incrível é que em cada um houve apenas um sobrevivente e um não confirmado. HiroBobby e Jess, fazem parte do grande acontecimento que marcou a vida de todos os envolvidos e de todo o mundo: a Quinta-Feira Negra deixou sua marca em milhares de pessoas. Desde o acidente as coisas começam a sair do controle tanto para os familiares das crianças, como para a população em geral, e conspirações começam a aparecer. Ainda mais quando o tal do pastor Len "entende" que a mensagem é para ele e é um sinal de Pamela, alertando sobre o Apocalipse. Sim, ele acredita que as crianças são os Cavaleiros do Apocalipse e são o prenúncio da desgraça que assolará a todos, e que os escolhidos serão arrebatados logo. Só que ele ultrapassa o fanatismo e causa diversos desastres. De outro lado também há teorias de que as crianças são na verdade extraterrestres e fazem parte de uma grande armadilha dos Outros.

Entre tramas políticas, religiosas e pessoais, Sarah Lotz amarra bem suas ideias, personagens e acontecimentos. O legal do livro de Lotz é justamente esta narrativa em forma de documentário. Achei muito interessante pois conhecemos a fundo o ponto de vista de cada personagem, suas dores, suas perdas, suas lutas e suas impressões. Outro ponto positivo para este estilo é que podemos ver os acontecimentos por diversos ângulos, o que nos dá uma visão bem mais geral e aprofundada de tudo o que está acontecendo. Confesso que em muitos momentos me vi tão imersa na leitura que fiquei tentada a pesquisar se alguns fatos não eram reais.

Eu particularmente gostei muito do início e do fim do livro que são narrados em primeira pessoa, pois passam o clima certo de tensão, suspense e surpresa. Também gostei dos relatos inciais dos acidentes, e dos relatos que nos mostram as crianças e como elas estão interagindo com seus parentes. Achei alguns relatos e personagens desnecessários e maçantes, mas ao todo a ideia é bacana.

Os Três é um livro assustador, não por ser sobrenatural, mas porque mostra como o mundo e as pessoas podem se perder em julgamentos e temendo sem conhecer; criando ideias, teorias e conspirações precipitadas. Lotz explora o lado humano da forma mais crua e primitiva, onde os medos, os anseios, as tristezas, as tragédias, a crueldade, a esperança, o fanatismo, e a loucura estão inerentemente presentes a nosso ser, e vivem de mãos dadas com nossas vidas, a ponto de a qualquer momento romper as fronteiras da sanidade e do bom senso. Mostra o lado sombrio do ser humano sob uma luz muito forte, inegável e impossível de não se ver e reconhecer.

Não é uma leitura recomendada se você não tem nervos de aço ou não gosta do gênero, tanto do livro quanto do estilo narrativo. Em muitos momentos eu me vi entediada com relatos enfadonhos, outros momentos me vi nauseada, e em outros me vi morrendo de raiva (passei mais raiva que qualquer outra coisa). Roí as unhas do inicio ao fim. Lotz consegue manter o suspense e a tensão desde o principio, e é impossível parar de ler até a última letrinha da história.

Eu gostei de muitos detalhes, gostei e torci por muitos personagens, e me vi temendo e odiando outros. Lily é a avó de Bobby e seu marido sofre de Alzheimer. Paul é o tio de Jess, que se vê profundamente atormentado pela morte do irmão, da cunhada e da sobrinha (irmã da garota sobrevivente). Chiyoko é a prima que cuidará de Hiro, e é uma adolescente aborrecida que não suporta sua vida e os pais, e tem como único amigo o recluso e problemático Ryu. O que eles têm em comum? Eles terão que aprender a lidar com as crianças que já não são mais as mesmas e apresentam comportamentos estranhos. E os relatos destes comportamentos e acontecimentos foram os meus favoritos no livro. #arrepiante

No final é a própria Elspeth que nos presenteia com um capítulo de deixar os nervos à flor da pele. E é justamente o finalzinho, lá nas últimas linhas, que eu fiquei de queixo caído: surpreendente.

Mas meu porém foi a conclusão do mistério. Sim, é a tal maldição do final vago. Depois que terminei a leitura fiquei uns bons momentos em uma overdose literária. E ainda, quando penso no livro, me pego olhando para o nada, refletindo sobre a leitura e o fim da história. Não foi bem o que eu esperava, e na verdade não foi tão esclarecedor quanto eu pensava que seria. Criei uma expectativa em torno do final e me vi cheia de dúvidas. Todos os personagens foram bem amarrados e entendi perfeitamente o destino de cada um. Mas ao final a sensação que tive foi a de ter assistido a um episódio de Além da Imaginação, onde o final é totalmente surreal, inimaginável e, muitas vezes, além de perturbador nos deixa em dúvida. Eu me senti assim. Fiquei pensando: sou burra ou sou louca? É isso mesmo que entendi? É isso mesmo que pensei? Será????  Sim, entendi, mesmo sem compreender totalmente. É o tipo de final que você pode tirar suas próprias conclusões e criar sua própria conspiração. O tipo de final ambíguo que pode ser isso ou pode ser aquilo. E sinceramente, eu odeio finais assim! Odeio com todas as minhas forças, ler um livro, criar expectativa sobre ele, e chegar ao final e não ter as respostas necessárias. Mas provavelmente é justamente esta sensação que a autora quis passar: o incerto, o duvidoso. Afinal isto nos dá muito mais medo do que aquilo que conhecemos, pois para uma ameaça desconhecida não podemos nos preparar.

Enfim, ao todo o livro é muito interessante. Faz muito tempo que um livro que não é do gênero terror me perturbava assim, e me deixava tão aflita. Os Três é uma leitura densa e surreal, mas não se engane procurando aqui um livro de terror, pois ele passa bem longe disso, seu terror é muito sútil. Divirta-se e tire suas próprias conclusões!