Os Bons Suicidas
Toni Hill
ISBN: 978-85-64406-94-0
Tradutor: Fátima Couto 
Ano: 2013
Páginas: 390
Editora: Tordesilhas
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Em Os bons suicidas reencontramos Héctor Salgado, inspetor da polícia de Barcelona, um homem de cabeça quente e reações viscerais. No meio de uma madrugada insone, ele é informado do suicídio da secretária de uma grande empresa de cosméticos numa estação de metrô da cidade. Durante a investigação, descobre que, meses antes, outro funcionário da companhia também havia se matado, levando consigo a mulher e a filha. Sara e Gaspar – são esses os seus nomes – tinham participado de um desses treinamentos de RH para melhorar a comunicação e a interação entre o grupo. Mas algo acontecera ali – disso o inspetor Salgado não tinha dúvida – algo que agora os ameaçava e que era grave o suficiente para mantê-los presos a um pacto de silêncio. Enquanto isso, a inquieta agente Leire Castro, subordinada de Héctor, aproveita a licença-maternidade para investigar por conta própria um desaparecimento ligado à vida pessoal do chefe. 

Bom, aqui estamos nós outra vez com mais um livro de suspense e mistério policial de Toni Hill. E já de imediato vou avisando aos que estão pensando em começar a ler Toni Hill agora, que Os Bons Suicidas deve ser lido, obrigatoriamente, após O Verão das Bonecas Mortas (veja a resenha aqui). Porque há um caso de mistério que se iniciou no livro anterior e que vai perdurar ao longo da série. Então, caso você queira começar a ler Os Bons Suicidas – apesar das histórias principais (deste e daquele outro) serem independentes, podendo ser lidas separadamente – você pode até fazê-lo, mas, lembre-se, você perderá uma parte importante da trama que envolve, direta ou indiretamente, todos os personagens centrais da série. Eu recomendo a leitura sequencial dos livros.

No livro O Verão das Bonecas Mortas nos encontrávamos em uma Barcelona castigada por um verão tórrido e chuvoso. Agora, em Os Bons Suicidas, encontramo-nos na mesma cidade, só que dessa vez em pleno inverno, às vésperas do Natal. Nesta continuação das façanhas investigativas de Héctor Salgado, o argentino sangue quente, pavio curto, fumante inveterado, mas sujeito de bom coração - apesar da fama de violento e agressivo que o estigmatiza, a despeito de tudo o que ele passou em no verão para tentar diminuir essa impressão negativa, eis que o encontramos um pouco mais ponderado nos seus atos e as voltas com mais um caso de suicídio. Desta vez o de uma mulher chamada Sara Mahler. Héctor é chamado  no meio da madrugada, por seu novo parceiro, Roger Fort (Leire Castro está de licença maternidade). Poderia ser apenas um típico suicídio sem muito o que fazer a não ser informar a família, não fosse o fato de que a suicida recebeu, um pouco antes de se matar, uma mensagem: “nunca se esqueça”, seguida de uma foto digital macabra: vários cachorros enforcados em uma árvore. Do outro lado da cidade, Leire Castro, grávida, tenta adequar-se a nova rotina de ficar em casa sem ter muito o que fazer, além de curtir a gestação. Entediada, ele decida ajudar seu chefe, sem o seu conhecimento, por pistas do paradeiro de Ruth Valldaura, ex-mulher do inspetor de polícia.

Assim começa Os Bons Suicidas. Duas histórias paralelas que prendem a nossa atenção no livro do começo ao fim. O mistério por trás do sumiço de Ruth perdura. Novos elementos, bem como novos personagens ligados ao caso ainda sem solução, vão surgir ao longo da narrativa, aumentando a certeza de que algo muito estranho aconteceu com ela. É um delicioso mistério que levanta muitas conjecturas e desconfianças. E, assim como aconteceu em O Verão das Bonecas Mortas, temos o caso principal, no qual Héctor Salgado está envolvido diretamente. Logo no prólogo temos a matéria de jornal que conta sobre o brutal assassinato de uma família: Gaspar Ródenas assassinou a esposa com um tiro e sufocou a filhinha no berço, depois se matou. Gaspar é funcionário de uma rica e conceituada empresa de cosméticos, a Alemany, dos irmãos Sílvia e Victor Alemany, para a qual também trabalhava a suicida do metrô, Sara Mahler. Para Héctor Salgado não existem coincidências, ainda mais quando dois funcionários de uma mesma empresa cometem suicídio num espaço de tempo de quatro meses. Por isso o caso vai exigir dele uma atenção especial.

Tanto Leire quanto Héctor, cada qual em sua investigação, vão se deparar com obstáculos que exigirão de ambos muito sangue-frio e persistência, por que as evidências que eles vão encontrar apontarão para caminhos ingrimes e tortuosos que poderá por um fim definitivo em suas carreiras.

O livro tem uma narrativa muito gostosa de ler. Toni Hill não deixa nada perdido no ar, ou ponta soltas. Seus personagens, todos eles, são bem caracterizados e com personalidades distintas. Estão todos muito bem escritos que nos é impossível não simpatizarmos com uns e odiarmos outros. Eu mesma, particularmente, amei essa personagem Leire Castro, tanto na sua vida particular quanto profissional. Ela é uma personalidade cativante e marcante. Por outro lado, odiei Sílvia Alemany e tudo o que ela representa. César Calvo é outro que me deu vontade de... OPS! Eu já ia perdendo as estribeiras aqui. Acho que foi influência de Héctor Salgado hehe.

Outro ponto que merece destaque nos livros de Toni Hill, é que ele tem uma verve nata, um dom maravilhoso, para compor mistério. Ah, e não pense você que só por que o caso central em O Verão das Bonecas Mortas girava em torno de suicídio que este, por tratar inicialmente de suicidas, é uma versão batida daquela outra. Nada disso! Tanto naquele primeiro livro, quanto neste, os suicídios são apenas a ponta do iceberg. Toda a trama se desdobra em altos e baixos, com acréscimos de novos personagens e elementos diferentes que demonstram que o que Héctor Salgado tem nas mãos é muito mais do que uma simples coincidência.

Então, vale dizer que, por conta disso, nem tudo o que aparenta ser é, de fato, na narrativa de Toni Hill. Não se engane, ele sabe nos surpreender. E creiam-me, ele conseguiu fazer isso em Os Bons Suicidas. Quando achei que eu não poderia mais se surpreender com as reviravoltas que os dois casos estavam apresentando, eis que no final ele me deixou pasma. É isso mesmo. Fiquei de queixo caído. E não só estou falando do caso central não. O caso paralelo, seguido por Leire Castro nos aguarda com uma revelação bombástica nas últimas páginas. Ah, não vou contar. Não insistam. Leiam, pelo amor de Deus. Surpreendam-se. 

Bom, de tudo isso que eu disse e de muito mais que eu poderia ter dito sobre o livro, acrescento apenas que Os Bons Suicidas é um excelente romance policial de mistério que agradará em cheio a todos os leitores. Toni Hill desponta, desde já, como um nome a ser respeitado na literatura de ficção policial, sem ficar a dever absolutamente nada para os grandes escritores do gênero.

A Editora Tordesilhas, uma vez mais, está de parabéns pelo ótimo lançamento. A capa do livro ficou show (melhor que as capas dos livros impressos lá fora). A tradução de Fátima Couto está bastante competente e a diagramação e composição do livro merece outro elogio. Esse, além de recomendado, já foi para os meus queridinhos do gênero.

Para encerrar, deixo aqui uma frase de Martina Andreu, do livro: "Regras... os bons têm regras demais e os maus, quase nenhuma."