Livro cedido pela editora para resenha
ISBN: 9788555340116
Tradução: Flávia Souto Maior
Ano de Lançamento: 2016
Número de Páginas: 320
Editora: Seguinte
Classificação: ♥♥♥♥♥ 
Sinopse: Remy não acredita no amor. Sempre que um cara com quem está saindo se aproxima demais, ela se afasta, antes que fique sério ou ela se machuque. Tanta desilusão não é para menos: ela cresceu assistindo os fracassos dos relacionamentos de sua mãe, que já vai para o quinto casamento. Então como Dexter consegue fazer a garota quebrar esse padrão, se envolvendo pra valer? Ele é tudo que ela odeia: impulsivo, desajeitado e, o pior de tudo, membro de uma banda, como o pai de Remy — que abandonou a família antes do nascimento da filha, deixando para trás apenas uma música de sucesso sobre ela. Remy queria apenas viver um último namoro de verão antes de partir para a faculdade, mas parece estar começando a entender aquele sentimento irracional de que falam as canções de amor.

Sarah Dessen é sem dúvida uma das maiores autoras de livro YA da atualidade. Com 12 livros já publicados, sua escrita é cativante, contagiante e muito vívida. Em Uma Canção de Ninar (This Lullaby), originalmente publicado em 2002, e somente publicado por aqui agora em 2016, pela Editora Seguinte, nos mostra, mais uma vez, o quanto a escrita é um dom das autora e algo que ela sabe como usar muito bem. As palavras, escritas no papel, parecem quase mágicas.

Neste livro conhecemos Remy, uma jovem completamente cética quando o assunto é amor. Inclusive ela tem 3 regras que segue e das quais não abre mão: 1- Não deixe ficar sério demais. 2- Não deixe ele partir seu coração. 3- E nunca, em hipótese alguma, saia com um músico.

Mas Remy tem seus motivos. Depois de tantos anos vendo os casamentos sucessivos e fracassados de sua mãe -  que vai se casar pela quinta vez -, e tendo sido abandonada pelo pai quando ainda era um bebê na barriga de sua mãe, fica meio difícil acreditar no amor. A única coisa que seu pai, que era músico, sem sequer ao menos conhecê-la, lhe deixa de herança é uma canção. Para piorar ainda tem em sua letra "Aonde quer que vá, Vou te decepcionar, Mas esta canção vai continuar a tocar...". O pai morreu, mas a canção se eternizou, para tormento de Remy. Ela vive uma relação de amor e ódio com relação a isso. É frustante. Para ajudar, sua mãe é escritora e viveu boa parte da vida de Remy trancada em seu próprio mundo, escrevendo suas histórias e delegando à ela responsabilidades das quais ela já está cansada.

É, Remy não teve bons exemplos aos quais pudesse seguir quando se trata de amor. Quando a coisa começa a ficar séria demais ela logo termina o namoro. Não é à toa que tem uma extensa e incontável lista de relacionamentos, entre ex-namorados e casos. E não é à toa que tem uma reputação meio questionável.

Eu já não tinha ilusão à respeito do amor. Ele vinha, ele ia, deixava vítimas ou não. As pessoas não eram feitas para ficar juntas para sempre, independentemente do que diziam as músicas. - pág. 64

Remy está feliz que o colégio acabou e ela e suas amigas, Lissa, Chloe e Jess, poderão partir, finalmente, para a vida adulta e deixar tudo aquilo para trás. Ela se livra de seu último namorado e mal vê a hora de aproveitar os últimos meses e o resto do verão, curtindo muito, antes de partir para Stanford, sua faculdade. Até que cruza com Dexter, um jovem músico que irá contrariar tudo aquilo que ela impunha como regras para si mesma, e como certo e seguro, fazendo sua vida virar de cabeça para baixo em pouco tempo.

Entre músicas, um esconderijo em cima de uma cama-elástica abandonada, cocas Zip, festas de casamento e muitas idas e vindas, Remy se vê perdida entre o que acha certo e o que realmente é certo. Entre o que era, o que é e o que almeja ser. Será que Dexter irá conseguir conquistar o frio coração de Remy?

Agora, Dexter estava sentado muito perto de mim, mais do que em qualquer outra ocasião de que eu me lembrava. Parecia que aquele dia poderia tomar várias direções, como uma teia de aranha de possibilidades infinitas. Sempre que se fazia uma escolha, principalmente à qual se estava resistindo, havia desdobramentos. Alguns consideráveis, como um tremor sob os pés; outros tão pequenos que mal se notava. Mas aconteciam. - pág. 124

Em primeira pessoa, sob o ponto de vista de Remy, Uma Canção de Ninar nos envolve com uma narrativa agradável e cativante, como só Sarah Dessen consegue escrever. Sua escrita é fluída e deliciosa, e a leitura avança de forma rápida. Mais uma vez Sarah me conquistou pela forma como escreve. Ela consegue fazer com que seus personagens sejam muito reais, e consegue dar a cada deles uma personalidade única, com seus defeitos e qualidades. É incrível! É impossível não imaginá-los reais, pois a forma como Sarah escreve é muito intensa, mesmo com uma história tão simples.

A história do livro, de forma geral, não traz grandes novidades ou reviravoltas, e, confesso, me decepcionou um pouco. Pode ser que esperava mais do que Sarah poderia me proporcionar, mas esperava. Acho que ela poderia ter se aprofundado mais em vários elementos que abordou na trama, já que se propôs a abordá-los, assim como esperei que alguns deles tivessem mais destaque, pois poderiam ter algum desenvolvimento interessante na trama. Por exemplo, o refúgio das amigas na cama-elástica mal foi aproveitado. Remy e seu irmão, Chris, têm históricos um tanto conturbados e questionáveis, e esses assuntos foram explorados de forma meio rasa. Nestes e alguns outros casos achei que Sarah simplesmente jogou ali o assunto, mas pouco explorou sobre. E isto me incomodou um pouco.

Outro detalhe é que eu demorei um pouco para sentir alguma empatia por Remy. Sinceramente? Não fui muito com a cara dela de início. E isso fez com que eu demorasse um pouco a me entrosar com o livro, já que a narrativa é justamente sob seu ponto de vista. Sei que ela tinha todos os motivos do mundo para ser como era, para agir como agia... Mas, se posso dizer o que eu achei dela? Achei ela uma cretina de cabeça dura! Sim! Desculpa a sinceridade, mas achei! Porém, com o tempo consegui enxergar o lado bom dela, a Remy escondida atrás da fachada de durona, e acho que em partes é justamente Dexter que consegue aflorar o que ela tem de melhor, e enxergar isso em si mesma.

[...] A maioria das pessoas é fácil de decifrar. Mas uma menina como você, Remy, tem camadas. O que se vê é muito distante do que realmente é. Você pode dar a impressão de ser durona, mas, no fundo, é fofa. - pág. 194

Já Dexter me cativou desde o início. Ele é totalmente o contrário do esterótipo de mocinho lindo, perfeito, de arrancar o fôlego que geralmente vemos em livros do gênero. Pelo contrário, ele é alto, magro demais, desengonçado, vive esbarrando nas coisas e mal consegue manter os cadarços de seus sapatos amarrados. Ou seja: um desastre ambulante. Porém tem um coração enorme e uma personalidade cativante. Também jamais perde as esperanças e é tão otimista com relação a tudo que chega a ser contagiante. Ele é completamente o oposto de Remy.

Apesar de algumas coisas que não me agradaram tanto no livro, sobretudo envolvendo Remy, não há como negar que outros aspectos Sarah desenvolveu bem. Ela conseguiu incluir uma temática familiar muito boa, que traz vários questionamentos e reflexões. Conforme a trama avança, Remy vai conhecendo melhor as pessoas que acha conhecer tão bem, principalmente sua mãe, que se mostra muito mais forte do que ela pensava que era. Ela percebe que ser forte é relativo, e que há muitas maneiras de se amar e ser amada. Que o amor é, no fim das contas, uma questão de se acreditar em si mesma e no outro. E ter fé e coragem.

- [...] É isso que nos transforma no que somos. Riscos. Isso é viver, Remy. Ficar com tanto medo a ponto de nem tentar é um desperdício. Posso dizer que cometi muitos erros, mas não me arrependo de nada. Porque pelo menos não passei a vida toda à margem, imaginando como seria viver. - pág. 273

Isso, juntamente com um desfecho maravilhosamente fofo, e as lições que nossa protagonista aprende, onde ela cresce, se redime e, principalmente, se descobre, foram os fatores que me agradaram neste livro. E, claro, também a narrativa de Sarah, que mesmo com uma trama tão simples, é maravilhosa. Estou ansiosa e e esperançosa de que mais livros da autora sejam publicados por aqui!

De forma geral, ainda que eu tenha esperado mais de Uma Canção de Ninar, este é um livro leve e agradável, ótimo para uma leitura despreocupada. Sarah aborda o tema amor de forma que nos faz refletir sobre nosso próprio modo de encará-lo e nos faz sorrir com a suavidade e sutileza com que o tema vai se infiltrando em cada página, com um desfecho que nos faz ter esperanças. Pois sim, eu ainda acredito no poder transformador do amor. De todas as formas de amor.