Mares de Sangue
Livro cedido pela editora
ISBN: 978-85-8041-314-4  
Série: Nobres Vigaristas, vol. 2
Tradução: Alves Calado
Ano: 2014
Páginas: 512
Editora: Arqueiro
Classificação:  ♥♥♥♥
Após uma batalha brutal no submundo do crime, o golpista Locke Lamora e seu fiel companheiro, Jean Tannen, fogem de sua cidade natal e desembarcam na exótica Tal Verrar para se recuperar das perdas e feridas. Porém, mesmo no extremo ocidental da civilização, não conseguem descansar por muito tempo e logo estão de volta ao que fazem de melhor: roubar dos ricos e embolsar o dinheiro. Desta vez, eles têm como alvo o maior dos prêmios, a Agulha do Pecado, a mais exclusiva casa de jogos do mundo, onde a regra de ouro é punir com a morte qualquer um que tente trapacear. É o tipo de desafio a que Locke não consegue resistir... só que o crime perfeito terá que esperar. Antigos rivais dos Nobres Vigaristas revelam o plano a Stragos, o ambicioso líder militar verrari, que resolve manipulá-los em favor de seus próprios interesses. Em pouco tempo, a dupla se vê envolvida com o mundo da pirataria, um trabalho inusitado para ladrões que mal sabem diferenciar a proa da popa de um navio. Em Mares de sangue, Locke e Jean terão que se mostrar malabaristas de mentiras, enganando todos ao seu redor sem a mínima falha, para que consigam sair vivos. Mas até mesmo isso pode não ser o bastante... 

E os Nobres Vigaristas estão de volta num ótimo romance para o deleite dos fãs da série ou para os fervorosos adoradores de aventura e fantasia. Eu, particularmente, me incluo nos dois tipos. E desde já vou adiantando que dei quatro estrelas por conta do segundo terço do livro que, mais adiante, falarei sobre isso.

Locke Lamora e Jean Tannen estão novamente às voltas com suas trapaças e vigarices de primeira. E, claro, mexendo com gente casca grossa, para variar. Isso porque os trapaceiros não conseguem aplicar golpes pequenos; eles pensam muito, mas muito alto, e, quando isso acontece, eles fatalmente acabam cutucando onça com vara curta.

Depois dos acontecimentos narrados em As Mentiras de Locke Lamora, no livro anterior, vamos encontrar Locke e Jean em Tal Verrar. Camorr e os acontecimentos, bem como os muitos personagens, que mudaram a vida dos Nobres Vigaristas ficaram para trás e, vez ou outra, são mencionados muito vagamente. Mas, independente de termos em Mares de Sangue uma história fresquinha, com personagens e acontecimentos diferentes, eu aconselho vocês a lerem o primeiro livro da série antes desse; porque aquele trata da origem dos Nobres Vigaristas, e sem isso boa parte do que acontece com Locke e Jean aqui vai ficar sem sentido.

Mares de Sangue começa com Locke e Jean numa tocaia. Mas logo Locke descobre que a tocaia foi armada por Jean e que o amigo de infância, agora, é um traidor. Mas a coisa para por aí, pois Scott nos deixa em suspense sobre esse impasse até as últimas páginas do livro. Para entendermos porque Jean se volta contra Locke, temos que ler todo o livro  e nos aprofundarmos, ou nos aventurarmos, no novo golpe que os Nobres Vigaristas vão aplicar, agora em Tal Verrar.

Inicialmente, Locke está deprimido, alcoólatra e chato, por causa do que aconteceu aos demais vigaristas do seu bando em Camorr. Jean é obrigado a fazer tudo sozinho, inclusive manter viva a chama dos Vigaristas. Ele aplica alguns golpes, enquanto Locke se afoga em mágoas. Achei muito legal a forma como Jean consegue se manter sozinho nos golpes e a forma como ele consegue tirar Locke desse ostracismo. Ufa, já era sem tempo!

Assim que Locke volta para à ativa novamente, ele articula um golpe brilhante. Talvez o maior golpe de toda a sua vida, e até mesmo dos Nobres Vigaristas. Em Tal Verrar a tecnologia dos Ancestres é predominante, por isso vamos encontrar muito vidrantigo e construções magníficas, agora de posse dos humanos. Nos Degraus de Ouro, na Agulha do Pecado, em um casino entranhado numa torre de vidroantigo, os Nobres Vigaristas põem em execução o seu mais ousado golpe. O casino é comandado por Requin, cujo braço direito é Selendri, sua esposa, e é um poderoso agiota que comanda o maior círculo de apostas do mundo. Aqui, trapacear nas cartas é considerado crime capital, punido com a morte imediata.

Mas não pensem vocês que a vida de Locke, agora Mestre Kosta, e de Jean, agora Jerome De Ferra, será fácil e sortuda. Sorte é uma palavra que eles perderam em Camorr. Em Tal Verrar eles vão contar com o improviso e, acima de tudo, com a ousadia. Inimigos não lhes faltam. Inclusive, os Magos-Servidores estão de volta e, desta vez, encetando uma vingança que vai deixar os Vigaristas de saia justa nas mãos do chefe da policia de Tal Verrar.

Entre altos e baixos, tramoias e traições, os Nobres Vigaristas vão ganhar o mar e se transformar em piratas. Aqui, no segundo terço do livro, como eu disse lá atrás, é a parte que, a meu ver, ficou um pouco a desejar. Essa aventura no estilo corsários fugiu muito da linha central ou do estilo que fez dos Nobres Vigaristas o que eles são. O forte deles são os disfarces, os golpes, as artimanhas para enredar os nobres e fazer fortuna; no mar, são como dois pinguins no deserto. Não combina. Além disso, os personagens dessa segunda parte da trama não caíram no meu gosto. Bom, ela é necessária para o desenrolar da história e, principalmente, é fundamental para a conclusão do golpe que Locke está aplicando em Tal Verrar, mas, francamente, me decepcionou um pouco. Na terceira parte do livro, Locke e Jean voltam para Tal Verrar e dão continuidade ao golpe e, aí sim, o bonde volta aos trilhos novamente. A conclusão do golpe, assim como a conclusão desse segundo livro, é simplesmente sensacional. Dizer que é de tirar o folego é eufemismo!

A narrativa de Scott Lynch continua soberba. O sujeito escreve mutíssimo bem e os Nobres Vigaristas ainda demonstram fôlego para uma vida longa e cheia de surpresas. Em Mares de Sangue, Lynch introduz novos personagens e outros elementos comum ao gênero fantasia. O suspense, o mistério e as peripécias de Locke Lamora continuam sendo o grande trunfo do autor. As traições, deslizes, surpresas e reviravoltas na trama são outro diferencial.

Nenhum outro autor soube inovar e explorar tão bem esse gênero literário, tirando-o do seu lugar comum, como o fez Scott Lynch. Portanto, espere encontrar em Mares de Sangue a mesma qualidade que fez de As Mentiras de Locke Lamora um grande sucesso mundial. Scott Lynch possui uma criatividade única. A mente do autor é privilegiada, pois ele consegue articular uma trama tão complexa e cheia de detalhes, meandros e interconexões, que quase nos deixa sem fôlego tentando imaginar como Locke e Jean farão para se safar das muitas armadilhas em que acabam caindo.

Na minha resenha do primeiro livro eu lhes dei cinco razões para lerem as Mentiras de Locke Lamora. Aqui, depois de tudo o que eu disse acima, eu só posso lhes dar uma única razão para lerem Mares de Sangue: Surpreenda-se!

Pois é exatamente isso. Mares de Sangue, apesar do segundo terço ter sido um pouco morno para o meu gosto, é feito de muitas e agradáveis surpresas. Há muitos personagens interessantes, novos e empolgantes, que tornam a trama tão viciante quanto no primeiro livro. Isso sem falar nas ideias mirabolantes de Locke Lamora, que são cada vez mais engenhosas e difíceis de executar. Só por isso o livro vale a leitura que, na minha opinião, é obrigatória para os amantes do gênero!