O Homem do Castelo Alto
 Philip K. Dick
Livro cedido pela editora
Tradução: Fábio Fernandes
ISBN: 978-85-7657-076-9
Páginas: 300
Ano: 2013
Editora: Aleph
Pontuação: ♥ ♥ ♥  
O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto que se desenvolvem os dramas de vários personagens. Ao apresentar uma versão alternativa da história, Dick levanta a grande questão: “O que é a realidade, afinal?

“Sou um filósofo que faz ficção, não um romancista; minha capacidade de escrever histórias e romances é empregada como um meio para formular a minha percepção. O núcleo da minha escrita não é a arte, mas a verdade. Logo, o que digo é a verdade, e não posso fazer nada para aliviá-la,nem por atitude nem por explicação.” - Philip K. Dick.

Depois dessa introdução, eu pergunto: como seria o mundo hoje se Adolf Hitler houvesse logrado êxito e derrotado os Aliados? Difícil de conceber, quanto menos ainda de imaginar, não é mesmo? Pois Philip K. Dick ousou fazer isso. E ele o fez melhor do que qualquer outro escritor teria imaginado.

Pode parecer loucura, mas é uma questão que nós quase nunca, ou nunca, levantamos no decorrer de nossas vidas. Quem de nós já não parou e olhou para trás e se fez essa pergunta: “se eu pudesse voltar atrás e ter feito tudo diferente?”. Essa fórmula também se aplica a outros fatos históricos que foram decisivos para a evolução humana. Como por exemplo: se as Cruzadas nunca tivessem acontecido; se a Renascença nunca tivesse levado ao iluminismo e a Revolução Francesa à Revolução Industrial; se Napoleão não tivesse sido derrotado; se Martinho Lutero não tivesse se oposto à Igreja Católica; se Colombo jamais tivesse descoberto as Américas... As possibilidades são infinitas; as alternativas, inimagináveis! Agora, só pra ilustrar ainda mais essa ideia, pense por um momento: e se você não tivesse nascido na família em que nasceu; ou, ainda, se você tivesse nascido homem, ou mulher, como seria a sua vida hoje? 

Philip K. Dick nos apresenta aqui uma realidade alternativa dentro de uma visão bastante plausível e aterradora de um dos momentos históricos mais tenebrosos e dramáticos da humanidade. No livro, ele não se preocupa em mostrar os acontecimento que levaram os Nazistas a vencerem a guerra; quanto menos ainda a própria guerra em si. A história começa no pós-guerra, cerca de 18 anos depois da derrota dos Aliados. Vitoriosos, os alemães e os japoneses dividem o mundo em dois blocos. O Império Japonês fica com a Austrália, a Ásia, mais da metade da América do Sul, o Alasca e toda a Costa Oeste dos Estados Unidos; os Nazistas, por sua vez, ficam com toda a Europa, Groelândia, 1/3 da América do Sul (parte norte), 2/3 da África (meridional e sul) e a Costa Leste dos Estados Unidos. A Itália se contenta com o norte da África e o Mediterrâneo. A região central dos Estados Unidos e o Canadá continuam independentes, mas sem desenvolvimentos significativos.

Assim parece fácil, não? Mas, não é. A simples divisão entre as duas potências, germânica e nipônica não resume o pós-guerra dessa realidade alternativa. K. Dick explora-a bem mais fundo. Ele expõe todos os elementos que marcaram as décadas de 1940, 1950 e 1960, mesmo porque a história se passa em 1962, mas sob a ótica de um mundo dominado por nazistas e japoneses imperialistas, onde os conceitos de religião, filosofia, política, cidadania, ideologia, humanismo, ciência e tecnologia, são outros. Nos territórios dominados pelo Japão, a população faz uso do I Ching como oráculo, e o usa praticamente para tudo em suas vidas; os japoneses são mais tolerantes com a cultura dos dominados e os tratam com alguma cordialidade e deferência, e se preocupam com a escalada do poder no Eixo Nazista, agora entregue nas mãos de “loucos”, após a aposentadoria de Hitler. Do lado Nazista, as coisas são mais radicais e a paranoia política e idealista, aliado ao misticismo fanático e ao egocentrismo racial não mudaram quase nada desde a guerra, e as perseguições aos judeus, aos comunistas e aos negros ainda é a síntese de um povo insatisfeito, incongruente e tirano; os africanos quase foram exterminados, e a África transformada em um grande laboratório de experiências biológicas para os cientistas do Reich; o Mediterrâneo foi vaporizado com experimentos nucleares; a ambição de Hitler levou os arianos para a Lua e Marte; boa parte de Nova Yorque foi transformada em campo de concentração; a Lufthansa tornou-se a principal empresa aérea a dominar os céus com seus foguetes ruidosos e fumarentos. Ufa! E isso é só uma leve pincelada do que Philip K. Dick concebeu nessa realidade alternativa do mundo do pós guerra.

Toda a trama de O Homem do Castelo Alto gira ao redor de uma dezena de personagens, cujas vidas se entrelaçam gradativamente. Em São Francisco, sob o domínio Imperialista Japonês, temos o sr. Childan, um antiquário que vende peças raras de antes da guerra; Frank (Fink) Frink, um artesão judeu que fabrica falsificações para o empresário Sr. Wyndan-Matson; Juliana Frink, esposa deste, que fugiu para as Montanhas Rochosas (nos estados neutros), onde se envolve com o misterioso Joe Zangara, um italiano caminhoneiro com uma missão mística; o sr. Nobusuke Tagomi e o casal Paul e Betty Kasoura, um espião alemão, e  alguns nazistas, obviamente. Hitler, infelizmente, não dá o ar da sua graça, mas a sua ideologia está presente, obviamente. E desta forma, a trama se desenrola ao redor desses personagens, e de outros, e que K. Dick expõe o cotidiano de um mundo dominado por japoneses e nazistas, ao mesmo tempo em que revela parte dos acontecimentos que levaram Hitler à vitória. Mas o foco principal do livro é filosófico.

Philip K. Dick dedilha uma filosofia politico-religiosa em que nos mostra, gradativamente, que existem muitas formas de se construir o amanhã; e se não tomarmos as decisões certas, esse amanhã pode ser terrível e assombroso. Isso se vê claramente nas atitudes que seus personagens tomam, ao longo da trama; atitudes que lhes comprometem a vida e, ao mesmo tempo, influencia a vida de outros personagens. E, enquanto expõe de forma maravilhosa essa realidade, K. Dick nos depara com a seguinte questão, talvez a mais importante das questões levantadas em seu livro: o que é a realidade?

O autor leva tão a sério e a fundo essa questão que dentro do próprio livro ele criou uma outra realidade paralela. Como? Vejam bem se isso não é algo que somente um gênio, lá por volta de 1960, criaria. Hawthorne Abendsen, “o homem do castelo alto”, escreveu um livro intitulado “O Gafanhoto torna-se pesado”, no qual descreve uma realidade alternativa para a Segunda Guerra Mundial, em que Hitler não venceu os Aliados e o mundo foi dividido entre Norte-Americanos e Britânicos de um lado, e Russos do outro. Mas, claro, ainda assim não são fatos históricos que nós sabemos como se deram. É uma outra realidade alternativa para o “e se Hitler não hovesse ganho a guerra”. Percebem? Uma realidade alternativa dentro de uma realidade alternativa.

No posfácio do livro, escrito por Fábio Fernandes, vemos que essa questão metafísica perseguiu K. Dick na maioria de suas obras. Décadas mais tarde, no filme Matrix, veremos um Morpheus levantar essa mesma questão enquanto tenta despertar em Neo a verdadeira visão do mundo (do mundo nu e cru, como ele de fato é) sem os espelhos, fumaças, brilhantinas e lantejoulas que o disfarçam sob fingidas aparências. Se olharmos atentamente ao nosso redor, de mente bem aberta, veremos que o mundo, de um modo geral, é feito exatamente disso: pontos de vista, ilusão... O que é real; o que é subjetivo. Verso e reverso; o alto e o baixo; luz e trevas; o físico e o espiritual!

Ao mesmo tempo em que O Homem do Castelo Alto é uma obra fascinante e de uma perspectiva inquietante para uma realidade que poderia muito bem ter sido outra, a narrativa de Philip K. Dick pode desagradar alguns leitores ainda não iniciados em suas obras, ou pouco afeitos ao estilo clássico da ficção científica. O Homem do Castelo Alto é um drama; um drama existencial de todos nós como seres humanos, participantes da história de nossa humanidade. Por essa razão, o forte da sua narrativa são os diálogos e o caráter forte dos seus personagens. Por tanto, o encadeamento da trama é lento e preciso como o giro dos ponteiros de um relógio; os segundos marcando os minutos e os minutos as horas. Como ficção tradicional, o livro é perfeito, onde tudo se harmoniza para compor uma visão única de uma realidade que, felizmente, nunca existiu. Bom, pelo menos não neste nosso universo; ou deste lado da fronteira do concebível!

Para finalizar, a Editora Aleph está de parabéns por manter em circulação essas pérolas da literatura mundial de alto nível intelectual. Nomes consagrados da ficção científica tradicional, ou clássica, como Philip K. Dick, Isaac Asimov, Frank Hebert, Athur C. Clarke, entre outros. O que é uma grande oportunidade para os saudosistas de plantão da velha guarda e os iniciantes que gostariam de conhecer o grandes mestres do universo Sci-Fi.

#Dica:
O Homem do Castelo Alto vai ser adaptado por Ridley Scott como minissérie para o Syfy e Produtor de Arquivo X, Frank Sponitz, ficará responsável pelo roteiro. (Fonte: http://bit.ly/1CQJ69o)