Anno Dracula
Kim Newman
ISBN: 978-85-7657-089-9
Ano de Origem: 1992
Publicado no Brasil: 2009
Tradução: Susana Alexandria
Páginas: 271 páginas
Editora: Aleph
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Conde Drácula não sucumbiu diante de Van Helsing e de seus destemidos companheiros. Ao contrário. O Rei dos Vampiros derrotou-os, desposou a Rainha Vitória, nomeou discípulos para funções burocráticas do Império e espalhou sua linhagem sombria por toda a Inglaterra. No coração da Londres vitoriana, um assassino está mutilando jovens vampiras e ameaçando a estabilidade do novo regime. Seu nome, Jack, o Estripador.

Em Anno Dracula, a Revolução Industrial não ocorre. O que surge em seu lugar é o sangue. Sim, justamente o sangue humano e, porque não dizer, o sangue vampiro. O sangue torna-se mais importante que o ouro e o aço, e com ele os filhos das trevas, os renascidos, remodelam o mundo. Vlad Tepes, mais conhecido como Conde Dracul, ou Drácula, não foi destruído por Abrahan Van Helsing e seus amigos, como vimos na obra de Bran Stoker. Aqui, o sanguessuga, aclamado Rei dos Vampiros, matou Van Helsing, dispersou os seus aliados, conquistou e transformou a rainha Vitória em sua filha das trevas (além de consorte), e, em pouco tempo, dominou toda a Grã-Branha, o Império de sua majestade, e alguns outros países do mundo. O clã do empalador se espalha pelo mundo, vicejando uma estirpe podre, doentia, egoísta e sanguinária. Do Palácio de Buckingham, Dracula reina absoluto. O Anno Dracula inicia-se.

Nos sórdidos porões de Londres, os filhos de Dracula e dos seus convertidos, ou transformados – os renascidos - trazem o estigma de um sangue ruim, corrompido, podre e venenoso. Muitos estão doentes. Alguns renascidos estão se transformando em coisas bestiais, medonhas. Muitas dessas transformações jamais serão completadas. Há vampiros morrendo por conta disso. E para tentar ajudar esses vampiros, surge o hospital Toynbee Hall, em Whitechapel. Ali vamos encontrar uma médica, uma vampira “anciã” de quase 500 anos, chamada Geneviève Dieudonné. Ela é uma das protagonistas dessa história. Ao lado do Dr. Jack Seward, entre outros, Geneviève conhecerá os horrores praticados por um assassino impiedoso e implacável, chamado Faca de Prata, que está assassinando prostitutas vampiras em Whitechapel. Além do terror provocado pelos crimes, que leva a Scotland Yard a becos sem saída e a população vampiresca de Londres ao desespero, há também um quê de anarquismo e rebelião sendo fomentado nos bastidores da cidade, insuflado por esses assassinatos. O pastor Jago, um não-vampiro, ou “quente”, instiga os não-renascidos a se oporem contra a ditadura de Vlad Tepes. É um barril de pólvora prestes a explodir.

Para tentar conter os ânimos exaltados da população e elucidar as mortes em Whitechapel, entra em cena uma galeria imensa de personagens, do mais variado calibre da história mundial e da literatura. Há pelo menos algo perto de 100 personagens fictícios, emprestados do livro de Bran Stoker e de outras obras literárias, dos quais destaco: Mina Harker, Arthur Holmwood (Sir Godalming), Microft Holmes (irmão do Sherlock Holmes), Henry Jekill (de O Médico e o Monstro), Dr. Moreau (da Ilha do Dr. Moreau), Quatermain (de As Minas do Rei Salomão), Inspetor G. Lestrade (de um Estudo em Vermelho), entre muitos outros. E também há as personalidades históricas, como a Rainha Vitória, Jack, o Estripador, Oscar Wilde, Florence Stoker, Wynne Baxter, entre outros.

Além de Geneviève, temos também Charles Beauregard, um “quente” do Clube Diógenes - uma espécie de Maçonaria, ou Clube Bildeberg, de não-vampiros ricos e lordes influentes -, a serviço da Rainha Vitória. Ele é nomeado pela “cabala”, os membros anciões que dirigem o clube, para investigar os assassinatos em Whitchapel. Em dado momento, ele e Geneviève vão se unir forças para combater os muitos obstáculos que surgirão, entre eles os carpatos. Soldados da guarda palaciano do Príncipe Consorte (Dracula), que farão uma investigação  paralela para capturar o Faca de Prata e os anarquistas liderados por Jago, distribuindo estacas pela cidade e empalando tanto quentes quanto renascidos.

Agora somem a essa imensa galeria de personagens a ótima narrativa de Newman com a atmosfera sombria e gótica da Londres vitoriana, com um  toque steampunk, e você terá um thriller histórico de suspense, mistério e terror de primeiríssima qualidade. Só por aí dá pra perceber que o livro é incrível. É admirável o que Kim Newman conseguiu fazer em Anno Dracula. Ouso dizer que é uma obra-prima. E se tivesse sido escrito na mesma época em que Dracula de Bran Stoker foi publicado, sem dúvida alguma, Anno Dracula seria um clássico.

Bom, mas o que Anno Dracula  tem de tão impressionante assim que valha a sua leitura e tantos elogios por parte dos críticos e da imprensa especializada? Anno Dracula não fala de vampiros, de mortos-vivos, Dracula, vampirismo e congêneres, hoje tão em alta e comum entre a galera, popularizados por sagas como Crepúsculo e Diários do Vampiro, além de séries de TV? Então, o que Kim Newman escreveu de tão diferente?

Anno Dracula é uma ópera de horror; um filme gótico que Tim Burton, na certa, já deveria ter filmado, pois é o seu estilo; um conto de fadas tenebroso, onde ser vampiro não é a coisa mais legal do mundo, e onde nem todos os vampiros são românticos e bonzinhos, ou bonitinhos; um mundo negro, sufocado por densos nevoeiros, sujo, destituído de leis morais e civis, onde o comércio do sangue é a moeda corrente de lucro para uma grande minoria e a libertação de poucos privilegiados.

Anno Dracula é a encruzilhada de uma humanidade desapaixonada, desiludida, amargurada, decadente e miserável, onde a Era Vitoriana de Dracula é a personificação de uma época cruel, sanguinária e apavorante, de uma sociedade sufocada na própria imundice e a beira da extinção.

E onde fica o Conde Dracula nisso tudo? Bem, ele não fica. Sua presença é tão enigmática e nebulosa quanto os assassinatos e a anarquia que graça em Londres. Recluso em Buckingham, ele não dá o ar da sua graça até o capítulo final: “A Vida Doméstica de Nossa Querida Rainha”. E, acredite, é mais do que suficiente. Depois de ler esse capítulo (e todo o livro), você verá os vampiros com outros olhos. Principalmente o Rei dos Vampiros. Claro, Anno Dracula também tem vampiros simpáticos e interessantes, como a própria Geneviève, e algumas das vítimas do Faca de Prata, como Mary Jane Kelly. Jack Beauregard também é interessantíssimo, tanto por sua obstinação, quanto por sua ousadia; o Dr. Jack Seward, outro não-vampiro, é de dar dó. Penélope (noiva de Beauregard) e Sir Godalming, representam muito bem o lado mesquinho dos quentes e dos renascidos.

Desta forma, Anno Dracula não se sustenta apenas pela quantidade de seus personagens. Muitos deles são apenas referenciados no livro (como Sherlock Holmes, aprisinonado na tenebrosa Torre de Londres), e outros aparecem apenas brevemente (como Florence Stoker, em duas ocaiões, apenas). O grande mérito de Kim Newman foi ter escrito, há 22 anos atrás, um romance visceral, refinado, com uma visão  apavorante para o fim da nossa espécie. Também é sarcástico e irônico, e não se furta em mostrar o lado podre do poder e das maquinações que o mesmo traça para dominar e manter as sociedades, sempre marginalizadas, em seu devido cativeiro.

Não espere de Anno Dracula aquele livro frufruzinho onde vampiros são tratados como a coisa mais essencial e perfeita, bela e moral, para as nossas vidas. Eles existem desde muito tempo. Vlad Tepes não foi o primeiro vampiro, mas de todos os anciões ele é o pior. Seu sangue é uma doença. Uma terrível doença que está se espalhando e levando à morte, ou à degeneração, os seus filhos renascidos. Ele precisa ser impedido a qualquer preço. E para isso, instaura-se uma das maiores conspirações já vista em um romance. E aqui, Kim Newman faz valer o ditado que diz: ”os fins justificam os meios”. 

Eu adorei Anno Dracula. É um dos melhores livros de vampiro que li ultimamente. Casa com perfeição terror, ficção alternativa, investigação policial, conspirações, vampirismo e horror gótico como nenhum outro. Poucos autores conseguem reunir tantos personagens e personalidades em uma mesma história com tamanha perfeição como fez Kim Newman. Isso, por si só, já vale a leitura.