O Guardião Invisível 
Dolores Redondo

ISBN: 978-85-01-09876-4
Tradução: Maria Alzira Brum Lemos
Ano: 2014
Páginas: 364 
Editora: Record
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Às margens do rio Baztán é encontrado o corpo de uma adolescente, assassinada em uma cerimônia macabra. No local, há pelos de diversos animais, vestígios de couro e rastros de algo não humano. Ela não foi a primeira vítima nem será a última. A imprensa logo responsabiliza o basajaun pelo crime, uma figura mítica guardiã dos bosques. Agora, Amaia Salazar, a investigadora responsável pelo caso, precisa retornar à sua cidade natal e lidar com fantasmas do passado enquanto busca um assassino em série muito mais aterrador do que pode imaginar.

O Guardião Invisível não é o primeiro livro de autor espanhol que leio. Até o presente momento, todos me agradaram muito. Não é para menos que eles possuem uma das melhores bibliotecas de toda a Europa. Percebe-se também pela qualidade cinematográfica que o país produz, cujos filmes, muitos dos quais foram refilmados em versões de língua inglesa por Hollywood. Por isso, quando me deparo com um autor espanhol, não penso duas vezes para ler. Por que, na certa, é garantia de boa leitura. 

Dolores Redondo não deixa por menos. Ela escreve muito bem. Sua história é cativante da primeira à última página. O Guardião Invisível é um thriller policial com muito suspense e mistério que envolve crimes em série, misticismo, folclore regional, um toque sobrenatural, drama e a realidade pura e simples da época em que vivemos. 

Amaia Salazar é a protagonista. Uma policial casada, que tem um drama pessoal, e que se vê obrigada a voltar para sua província natal para investigar o violento e macabro assassinato em série de garotas adolescentes. Além de se deparar com um criminoso difícil de ser rastreado, Amaia tem que se defrontar com os fantasmas igualmente perturbadores da sua infância, que ameaça a sua integridade moral, a sua estabilidade no casamento e o seu discernimento como policial. 

Os demais personagens são igualmente interessantes (alguns deles, perturbadores), uns atuando mais do que os outros, mas todos são fundamentalmente importantes para o desenrolar da trama. Claro que tem aqueles que você ama e os que você odeia. Flora, a irmã de Amaia é um deles, obviamente. Ela é insuportável do começo ao fim da história. 

Quanto aos crimes, a descrição dos mesmos é repleto de detalhes forense. Nota-se que Dolores Redondo não poupou esforços para tornar cada assassinato o mais verossímil possível. E o mesmo acontece com as necrópsias, cuja descrição técnica deixa os seriados de TV de investigação forense com cara de trouxas. 

Também gostei muito desse toque místico, meio cigano, meio sobrenatural, que Dolores enfocou, como um pano de fundo, para realçar o tópico principal da trama. Em dado momento o misticismo, e porque não dizer o sobrenatural, parece tomar o primeiro plano e mudar o enfoque da investigação. O que só faz por realçar o mistério que envolve a comunidade basca no vale de Navarra, às margens do rio Baztán e, de quebra, aguça ainda mais a nossa curiosidade. 

Apesar dos muitos pontos positivos que a boa narrativa de Dolores Redondo tem para nos oferecer, há um negativo que, apesar de não diminuir a minha boa impressão do livro, me deixou um pouco chateada no primeiro 1/3 da leitura. Foi a falta de descrição dos personagens. Dolores não descreve como eles são fisicamente; qual a aparência que cada um deles tem, inclusive a inspetora Amaia. As vítimas são descritas em detalhes, o que é muito legal para criarmos em nossa mente o quadro e a circunstância em que as mesmas foram mortas (o que torna o suspense e o mistério ainda mais interessante). Ela prima por desenvolver o lado psicológico das personagens, aprofundando-se em quase todos eles, principalmente nos principais da trama; mas é só. O que é lastimável, do meu ponto de vista, pois eu, como leitora, gosto de saber como são as personagens da história que estou lendo. Penso que isso ajuda muito a criarmos uma empatia por eles. 

Mas, independente disso, o mérito dela ter escrito um ótimo thriller policial está mantido. Adorei o livro e aguardo ansiosamente o segundo da trilogia policial do Baztán, com Amaia Salazar encabeçando outra investigação policial. Aliás, o finalzinho desse livro aponta exatamente para isso, uma continuação repleta de mais mistérios e assassinatos apavorantes. Aguardemos! Se recomendo a leitura? Sem dúvida alguma!

Destaco também a excelente capa do livro que, a meu ver, ficou ótima. Excelente composição gráfica e boa diagramação. Melhor que a da edição espanhola. Evoca com perfeição o clima da história, com um toque de sobrenatural e mistério; de coisas pendentes do passado assombroso que estão sempre vindo à tona para nos assombrar.