O Último Passageiro
Manel Loureiro
ISBN: 978-85-422-0260-1
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Ano: 2014
Páginas: 382
Editora: Planeta 
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
() Favoritado!
Agosto de 1939. Um enorme transatlântico chamado Valkirie aparece vazio e à deriva no Oceano Atlântico. Um velho navio cargueiro o encontra e decide rebocá-lo até o porto, mas não sem antes descobrir que nele há um bebê de poucos meses... e algo mais que ninguém é capaz de identificar. Por volta de setenta anos depois, um estranho homem de negócios decide restaurar o misterioso transatlântico e repetir, passo a passo, a última viagem do Valkirie. A bordo, presa em uma realidade angustiante, a jornalista Kate Kilroy busca uma boa história para contar. Mas acabará descobrindo que somente sua inteligência e sua capacidade de amar podem evitar que o transatlântico pague novamente um preço sinistro durante o percurso. Inquietante. Enigmático. Viciante. Bem-vindo ao Valkirie. Você não poderá desembarcar…mesmo se quiser.

Tenho que dizer, este é o livro que Stephen King gostaria de ter escrito!

Eu sempre fui curiosa para conferir Apocalipse Z, de Manel Loureiro. Tantos comentários positivos, tanta gente elogiando e indicando, e eu ainda não tive o prazer de ler! Mas eis que a oportunidade de ler algo de Manel não surge para mim através da sua tão famosa trilogia de zumbis, mas sim através de seu novo (e fantástico) livro.

Em O Último Passageiro, saímos do clima apocalíptico de um mundo devastado por uma pandemia zumbi e enveredamos por uma atmosfera (ou uma névoa apavorante) de mistério, suspense e paranormalidade. E claro, pontuada com um terror de primeira numa narrativa onde se pode encontrar personagens interessantes e um bom desencadeamento da trama.

O Último Passageiro me encantou desde o prólogo que, aliás, chama-se A Névoa e subdivide-se em quatro capítulos, com 41 páginas. Confesso que foram as 41 páginas de introdução num livro que mais me apavoraram até agora. Se o restante do livro não tivesse mais nada a oferecer, esse prólogo “prolongado” já teria valido a pena; pois é puro terror. Um terror visceral, daqueles do qual é impossível ficar indiferente. É uma combinação perfeita de tudo que eu tenho como fobia: a vastidão do oceano; a escuridão absoluta; uma névoa amarela assustadora; um navio saindo do nada… Quer mais?! 

Essa primeira parte do livro conta o encontro do navio Valkirie, em 1939, pelo navio carvoeiro Pass of Ballaster. O capitão Tom McBride e sua tripulação estão passando por maus bocados sob um nevoeiro denso e misterioso. No navio nada funciona corretamente, e o ar está tão frio que pingentes de gelo já começam a se formar dentro do navio. O clima não melhora quando eles se deparam, de forma quase mortal, com um misterioso navio: o Valkirie. O que aparentava ser quase um acidente náutica, acaba se transformando num pesadelo ainda maior para McBride e seus tripulantes. O clima é de terror puro e genuíno. É de tirar o fôlego, simplesmente.

A segunda parte do livro é Kate. Catalina Soto, ou Kate Kilroy, uma bela jornalista do London New Harald, que encontra-se ainda enlutada pela morte do marido, também repórter daquele mesmo jornal, Robert Kilroy. Assim que retorna ao trabalho, Kate vai receber da diretora do jornal, Rhonda Grimes, a reportagem que Robert estava fazendo sobre um sujeito chamado Isaac Feldman: uma espécie de banqueiro dos cassinos virtuais; um sujeito multimilionário, considerado mafioso e sem escrúpulos. Rhonda instiga a curiosidade jornalística de Kate e, deste ponto em diante, ela vai retomar a investigação de Robert. O que ela não podia adivinhar naquele primeiro momento, é que sua vida iria ser posta de cabeça para baixo numa vertiginosa aventura de mistério e terror.

Essa parte é bem interessante, pois vamos conhecer algumas particularidades do navio Valkirie, bem como que fim levou a tripulação do carvoeiro Pass of Ballaster. Além do que, obviamente, um pouco sobre o próprio Isaac Feldman, a medida em que a investigação de Kate vai aproximá-la do Valkirie.

A terceira parte é Valkirie. Nesse momento, Kate (e nós, obviamente), embarca no misterioso navio. A partir desse ponto em diante vamos conhecer outros personagens que compõem o plantel de personalidades da trama principal. Também vamos nos aprofundar, gradativamente, na história por trás do Valkirie. O navio foi comprado e restaurado por Isaac e posto para navegar outra vez. Muita coisa interessante vai acontecer nessa terceira parte do livro. É quase como uma montanha-russa de emoções. O foco central da narrativa é Kate Kilroy, mas o autor nos apresenta outros pontos de vistas, em alguns momentos, para realçar o clima de terror ou de mistério.

Este livro nos apresenta uma história de terror de primeira linha com momentos arrepiantes. O mistério é constante, no que tange as origens do Valkirie e os aspectos sobrenaturais que envolvem o desaparecimento da tripulação e passageiros da viagem inaugural de 1939; assim como quanto ao interesse de Isaac Feldman em colocar o navio novamente em circulação depois de mais de 70 anos de inatividade. E como se isso não bastasse, há ainda todo um clima de tensão entre os passageiros a medida em que eles se deixam influenciar pela obscuridade que envolve o navio.

Eu, particularmente, me deliciei (me apavorei, seria mais decente de se dizer) lendo-o. Me simpatizei de cara com Kate e seu drama. Gostei muito do jeito como ela conduziu a investigação e de como concluiu a história. Também gostei muito da tripulação do Pass of Ballaster e senti uma grande pontada de pena por Isaac.

O livro me lembrou, assim indiretamente, é claro, um outro livro que li: O Iluminado, do divo Stephen King... naquela parte do hotel, quando os eventos paranormais começam a se manifestar pra valer e Jack enlouquece de vez. Por isso eu disse, lá no começo, que este é o livro que Stephen King gostaria de ter escrito. Eu considero O Iluminado a melhor história de terror paranormal já escrita até hoje, e Manel Loureiro não fez por menos em O Último Passageiro.

Manel cria um empolgante e sensacional thriller que mistura com perfeição suspense, mistério, terror, ficção e o sobrenatural. É uma apavorante viagem pelo medo, no tempo e espaço, dentro de um navio tomado pelas sombras mais profundas que alguém já viu, onde pessoas atormentadas e acossadas pelo medo convivem com criaturas sombrias e enigmáticas, cercados por toneladas de aço frio em pleno oceano. Não há como resistir ao avanço das sombras. Nenhum lugar é seguro para se esconder. O mistério, a morte e a escuridão encerram-se dentro do Valkirie.

Falando do livro em si, adorei a capa! Tem todo o clima de mistério, terror e paranormalidade que vamos encontrar em suas páginas. A diagramação está ótima. Como ressalva, tenho apenas a salientar que há alguns erros de impressão em algumas linhas em trechos espalhados pelo livro que carecem de uma revisão em uma próxima edição. De resto, o livro está show.

Valeu cada coração que dei de pontuação para ele e a garantia de um lugarzinho entre os meus favoritos. Manel Loureiro prendeu minha atenção até a última linha do livro. São 382 páginas das quais foi impossível desgrudar. E até o último parágrafo Manel sustém o desfecho final. E quando ele o conclui, é simplesmente arrebatador – ou melhor dizendo, apavorante. Esse, tenho certeza, não vai demorar para virar filme (assim espero)!