Tigana 
Guy Gavriel Kay
ISBN: 9788567296067
Ano: 2014
Páginas: 368
Tradutor: Carlos Daniel Vieira
Editora: Saída de Emergência Brasil
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Tigana é uma obra rara e encantadora onde mito e magia se tornam reais e entram nas nossas vidas. Esta é a história de uma nação oprimida que luta para ser livre depois de cair nas mãos de conquistadores implacáveis. É a história de um povo tão amaldiçoado pelas negras feitiçarias do rei Brandin que o próprio nome da sua bela terra não pode ser lembrado ou pronunciado. Mas anos após a devastação da sua capital, um pequeno grupo de sobreviventes, liderado pelo príncipe Alessan, inicia uma cruzada perigosa para destronar os reis despóticos que governam a Península da Palma, numa tentativa de recuperar um nome banido: Tigana. Num mundo ricamente detalhado, onde impera a violência das paixões, este épico sublime sobre um povo determinado em alcançar os seus sonhos mudou para sempre as fronteiras da fantasia. 

Inicialmente, quero parabenizar a Saída de Emergência Brasil (novo selo editorial da Editora Arqueiro) pelo excelente – pra dizer o mínimo – trabalho gráfico do livro. A capa é fantástica. O layout do livro, com os mapas coloridos no verso da capa e da contracapa ficou ótimo; o tamanho e espaçamento das letras, excelente. Se a qualidade vista em Tigana se manter constante nos próximos lançamentos da editora, os leitores, sem dúvida alguma, serão premiados com o que há de melhor no mercado editorial.

Quanto ao livro, gostaria de fazer um adendo inicial dizendo que Tigana foge completamente ao estilo mais moderno do gênero fantasia que temos visto no mercado literário atualmente. Os leitores que estão procurando aventura e fantasia do tipo espada e magia, muito comum do universo D&D (Dungeon and Dragons), podem se decepcionar um pouco com Tigana, principalmente nas primeiras duzentas páginas. Mas deve-se levar em consideração também a publicação do livro, originalmente em 1990, e a sua relevância para a época.Ao contrário dos escritores modernos de fantasia, Gavriel Kay é um escritor que prima pela construção, bastante rica e detalhada, da personalidade dos seus personagens, dos cenários urbanos e políticos onde a história se passa. Tigana nos faz lembrar a Itália renascentista – como mostra perfeitamente a capa do livro.

Não há anões, dragões, orcs ou trolls gigantes; nem pirotecnia, comum do gênero; lutas épicas e grupos heterogêneos correndo pelos pântanos e cerrados a procura de artefatos mágicos; livros de encantamento; ou coisas desse tipo. No entanto, Guy Gavriel Kay é um ótimo escritor. Sua narrativa é fluente e rica em detalhes; seu personagens possuem uma desenvoltura peculiar da personalidade individual – você não encontrará dois personagens descritos da mesma forma.

A trama de Tigana gira em torno de política, traições, conspirações, vingança, ódio, opressão ditatorial, entre outras coisas. Gavriel também aborda filosofia e religião, dando vida a um panteão de novos deuses e clérigos obstinados e fiéis devotos de todo o gênero. Tudo isso, e um pouco mais, em um ambiente fascinante e encantador, exuberante em detalhes e vida. A atmosfera criada pelo autor é visceral. Têm-se a impressão de que Tigana emerge das páginas do livro diante dos nossos olhos, tamanha a fascinação que a narrativa de Gavriel Kay exerce sobre nós, por conta da narrativa elaborada e envolvente. Os vilões cumprem apropriadamente o papel a que se prestam, e em determinado momento você chega até a sentir pena deles.

Gavriel Kay age como um escultor. Ele entalha um bloco de pedra, dando-lhe a forma de um belo corpo que se transforma gradualmente diante dos nossos olhos. Pois é assim que as coisas se passam em Tigana. Os que querem uma leitura rápida, do tipo fast-food, vão se ressentir um pouco. Mas, se souberem aproveitar o que Tigana tem de melhor para oferecer, perceberão que o livro promete muitas surpresas ao longo da saga.

Pelo excelente trabalho editorial da Saída de Emergência Brasil e pelo diferencial que Tigana nos proporciona num gênero que vem sofrendo ultimamente com lançamentos duvidosos de autores que pretendem ser o novo Tolkein da noite para o dia, Guy Gavriel Kay merece a oportunidade de ser apreciado. Boa leitura!