A Maldição de Domarö
John Ajvide Lindqvis
ISBN: 9788564406568
Tradutor: Renato Marques
Ano: 2013
Páginas: 496
Editora: Tordsilhas
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Um jovem casal leva sua filha, uma criança chamada Maja, para um passeio no farol do arquipélago sueco Domarö, onde passaram parte importante de sua vida. Contudo, o momento de comunhão transforma-se em um pesadelo quando a criança desaparece misteriosamente. A narrativa, então, toma um salto de dois anos, tempo suficiente para uma mudança drástica na vida do outrora feliz casal. Separado de Cecilia, Anders é agora um homem entregue à bebida e à apatia. Desolado, retorna à ilha e logo começa a investigar o que de fato aconteceu à filha, descobrindo antecedentes de acontecimentos estranhos no lugar. O elo comum parece ser o mar, cuja aparente calmaria guarda, sob suas profundezas, forças desconhecidas. 

Primeiramente, gostei da capa do livro. Evoca todo o mistério e suspense que nos promete o livro, e que vamos encontrar nas suas páginas. Não deixa claro todo o contexto, mas, na medida exata tem todo um simbolismo que, a medida em que vamos lendo, vai ficando cada vez mais claro e óbvio ao nosso entendimento.
O poder ancestral de um mal desconhecido. 

John Ajvide Lindqvist está sendo comparado a Stephen King, pela imprensa internacional. A princípio, achei a comparação meio que descabida (a meu ver King é inigualável). Porém, a medida em que lia este livro, percebi que a comparação é, de fato, inevitável. Não sei se Lindqvist tenta seguir os passos de King, ou se esse é o jeito com que ele escreve e que, coincidentemente, se aproxima do modo narrativo do escritor estadunidense. Vejam bem, não que isso seja um ponto negativo. Muito pelo contrário. Eu sou fã de King, e adorei descobrir nas páginas de  A Maldição de Domarö que Lindqvist tem uma forma de escrita muito semelhante à Stephen King. Isso, por si só, me fez ficar ainda mais interessada por ler este livro. Ao terminá-lo, conclui que as comparações, além de inevitáveis, são justas. Pois, em muitos momentos (para não dizer que foi o tempo todo), eu tive nítida impressão de ler um livro de King.

Comparações ou semelhanças à parte, Lindqvist escreve muito, muitíssimo bem. Ele não poupa tinta e papel ao escrever. Coloca tudo o que acha relevante no papel (e até mesmo o que aparenta não ter relevância alguma, acaba se tornando relevante com o passar da leitura), esmiuçando situações, personagens e acontecimentos com uma riqueza de detalhes que eu só vi em poucos autores. E King, a meu ver, é um mestre nesse sentido.

A Maldição de Domarö começa com o desaparecimento da menina Maja, como vocês já sabem pela sinopse. Algum tempo depois, Anders, agora separado da esposa Cecilia, está de volta a Domarö, uma ilha de veraneio, para tentar pacificar a sua consciência. Entregue a bebida e aos pesadelos, Anders fará a parte investigativa da história, já que ele não pretende descansar até descobrir que fim levou sua filhinha, e para isso ele irá se defrontar com segredos ancestrais ocultos em Domarö que envolvem as origens da ilha e do seu povoado. E isso quer dizer, é claro, envolver-se com coisas de dão medo; que assustam, principalmente à noite: coisas sobrenaturais; pesadelos tenebrosos; personagens saídos das profundezas mais sombrias e apavorantes da mente humana.

Mas não pense que a história toda gira ao redor de Anders e dos acontecimentos sobrenaturais e, aparentemente, inexplicáveis. Há outros personagens que compõem uma quantidade enorme de figurantes dos mais diversos que um autor pode criar. Simon (o mágico) e Ana-Greta (a avó de Anders), são os centrais. Ao redor do casal, bem como do próprio Anders, gravitam outros personagens igualmente interessantes. Uns são simpáticos, outros não estão para conversa, e mais alguns outros são o próprio pesadelo em pessoa, como Henrik e Björn. Elin me causou pena. Outros, alguma simpatia ou um mesmo tanto de aversão. Mas, Simon e Ana-Greta roubam a cena. Eu nunca vi duas pessoas tão diferentes darem tão certo como esses dois. São adoráveis e a história da vida de ambos, contada por eles em forma de flash-back, é bem interessante e viciante. Quanto a Anders, eu não gostei do personagem, apesar de ter me interessado e sensibilizado bastante por sua dor e pelo esforço quase doentio (para não dizer obsessivo) com que ele busca a filha desaparecida.

A história do surgimento da ilha, desde os seus primórdios geológicos até o surgimento do primeiro povoado, é interessante e ilustrativa para o entendimento da trama em si. É óbvio que aí já nos deparamos com um mistério bem antigo e visceral que envolve a ilha e os seus moradores e que, direta ou indiretamente, tem a ver com o sumiço de Maja e de outros habitantes do povoado, já que esconde um segredo de aspecto e proporções  sobrenaturais.

Bom, eu poderia falar mais e mais sobre esse livro que, aliás, é o primeiro que leio do autor e que de imediato caiu no meu agrado. Porém, não quero me estender e revelar pontos importantes que, certamente, vão estragar a leitura de vocês. Por isso, acho melhor encerrar dizendo que A Maldição de Domarö é um ótimo thriller de suspense e mistério e que, ainda de quebra, tem romantismo, drama e terror sobrenatural de primeira qualidade.

A princípio temos a impressão de estar diante de um romance do tipo thriller policial, por conta do desaparecimento de Maja. Mas à medida em que vamos conhecendo a vida de cada um dos personagens, nos aprofundando na topografia da ilha e do vilarejo, e mergulhamos (quase que literalmente) no oceano que a cerca, descobrirmos que Lindqvist criou uma obra complexa e intimista, tanto quanto as profundezas do mar com suas gaivotas e os cardumes de arenque e todo o mistério, lendas e terrores que isso suscita. As idas e vindas entre os personagens principais e os coadjuvantes, tornam a leitura abrangente e viciante, ora nos causando o mais puro terror; ora nos enternecendo com um puro lirismo, como naquela cena em que uma folha cai da árvore e, lentamente, bem lentamente, toca a mão de Simon. A cena é narrada em mais de uma página e é cheia de significado poético que, a primeira vista, parece ser apenas enrolação, mas que no fundo tem suma importância nas emoções conflitantes que o personagem está vivendo naquele exato momento.

Isso, por si só, já demonstra a força narrativa que Lindqvist tem para oferecer. Quer seja porque ele está se tornando rapidamente num escritor mundialmente aclamado e admirado no mundo inteiro; quer seja pelo fato de que sua escrita se assemelha com a de Stephen King; quer seja pelo sucesso estrondoso de Deixa Ela Entrar e Mortos Entre VivosA Maldição de Domarö é um romance que não pode ficar de fora dos seus planos de leitura se você gosta do gênero. Leia, e assombre-se!