Quando Tudo Volta
John Corey Whaley
ISBN: 9788581633848
Tradutor: Carolina Caires Coelho
Ano: 2014
Páginas: 224
Editora: Novo Conceito
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
Uma morte por overdose. Um fanático estudioso da Bíblia. Um pássaro lendário. Pesadelos com zumbis. Coisas tão diferentes podem habitar a vida de uma única pessoa? Cullen Witter leva uma vida sem graça. Trabalha em uma lanchonete, tenta compreender as garotas e não é lá muito sociável. Seu irmão, Gabriel, de 15 anos, costuma ser o centro das atenções por onde passa. Mas Cullen não tem ciúmes dele. Na verdade, ele é o seu maior admirador. O desaparecimento (ou fuga?) de Gabriel fica em segundo plano diante da nova mania da cidade: o pica-pau Lázaro, que todos pensavam estar extinto e que resolveu, aparentemente, ressuscitar por aquelas bandas. Em meio a uma cidade eufórica por causa de um pássaro que talvez nem exista de verdade, Cullen sofre com a falta do irmão e deseja, mais que tudo, que os seus sonhos se tornem realidade. E bem rápido.

Quando Tudo Volta é a estreia do autor John Corey Whaley no mundo literário, e depois de lê-lo considero que foi um excelente começo. A história foi muito bem desenvolvida, seus personagens são como antigos conhecidos que acabamos reencontrando. E porque não dizer, às vezes, eu me encontrei em alguns deles.

A leitura é fácil e rápida. Os únicos senões do livro para mim foram as poucas descrições físicas dos personagens e o final. Apesar da falta de descrição, não me atrapalhou em usar a imaginação e visualizá-los quase perfeitamente (acredito eu), pois a riqueza dos outros detalhes me permitiram isto. Talvez o autor quisesse que isso realmente acontecesse, e imaginássemos como bem entendêssemos, afinal eles podem ser qualquer um e ter qualquer aparência. Um vizinho, um amigo, um parente. O final me deixou em dúvida se é aquilo mesmo que entendi. Isso aconteceu justamente pelas atitudes de dois personagens, um deles inclusive é o próprio Cullen que tem uma fértil imaginação (que não se cansa de usar durante toda a história).

A trama tem início com a morte por overdose de Oslo, primo de Cullen e Gabriel, e como eles enfrentam o drama que a tia está passando. Eles continuam suas vidas, mas não muito depois a família passa pelo desespero do desaparecimento de Gabriel (ou seria fuga!?). Tudo isso com o pano de fundo do frenesi que a cidade de Lily, Arkansas, vive naquele momento específico. Toda a atenção está voltada somente para o suposto reaparecimento de um pássaro raro, que foi considerado extinto à décadas, e por isto mesmo, seria uma verdadeira oportunidade para aquela pequena cidade de 3 mil e poucos habitantes aparecer no mapa, levantando assim a autoestima e o astral de todos. Portanto todas as atenções, inclusive da mídia, estão voltadas para o famoso pica-pau Lázaro, dificultando a divulgação do pedido de ajuda para encontrar o jovem desaparecido, ficando apenas os familiares e alguns amigos (e uns poucos agentes policiais) responsáveis pela procura e investigação.

Dos personagens, o que posso dizer? Eles são tão verdadeiros e reais, que tornam a história ainda mais tocante e sincera. Aliás eles são a essência da história e a própria história. Cullen Witter é um jovem de 17 anos que é um tanto cínico perante as coisas da vida, responsável, um tanto anti-social (e por isso mesmo não gosta de chamar a atenção para si), e por isso não se importava nem um pouco que seu irmão Gabriel, de 15 anos, fosse o oposto: alegre, maduro, jovial e uma pessoa que acreditava em segundas chances; que não se deixava levar por falsas aparências; que tornava as situações muito melhores. Para seu irmão mais velho ele era seu ídolo, aquele que lhe mostrava seus exageros e que lhe permitia ser alguém melhor; sendo seu melhor amigo.

Fora da família os irmãos tem a amizade de Lucas Cader, a qual Cullen em particular não sabe como conseguiu, afinal o rapaz é muito popular (provavelmente porque Lucas gosta de proteger os mais fracos, principalmente os irmãos), e também contam com a amizade de Mena, a namorada de Lucas. Os quatro sempre estão unidos.

Através de Cullen conhecemos alguns outros personagens, entre os quais, John Barling, que é justamente o responsável pela febre que tomou a pequena cidade de Lily, pois afirma com toda a certeza que viu o raro pássaro pelas imediações e não descansará enquanto não provar o fato e trouxer o pica-pau Lázaro aos olhos de todos. Também conhecemos a jovem Ada Taylor, a viúva negra (chamada assim por causa de seus envolvimentos amorosos, que acabam sempre em morte para os infelizes) e que é, vejam só, a paixão do garoto Cullen. Claro que ele também tem um rival, o Russel, um valentão da escola, que é namorado da moça.

Também destaco dois outros personagens: Samuel e Sarah Witter, os pais. Eles mostram todo o processo desesperador da perda, tudo que se faz e tudo que se vai; tudo que não se consegue fazer, o vazio que fica, o tormento que não termina para os que não sabem onde está e o que aconteceu com seu ente querido que simplesmente desapareceu da face da Terra.

Cullen lida da forma dele com esta perda usando sua fértil imaginação, que por vezes chega até a ser tétrica e desconsoladora, pois é atormentado com visão de zumbis (todos que conhece, inclusive Gabriel). Odeia a celeuma causada pela procura do pássaro, pois isto leva a imprensa em peso para a cidade, mas não ajuda em nada na investigação do desaparecimento de seu irmão. Por isso mesmo ele se divide entre o ódio e pena do pobre pica-pau, tão vorazmente procurado. Paralelamente aos conhecidos de Cullen, vemos Benton Sage Cabot Searcy (este último fanático pela bíblia) e seu entrelaçamento com a cidade.

Realmente apreciei ler este livro. Gostei das visões atormentadas de Cullen, assim como sua mania de inventar títulos para livros que quem sabe um dia escreverá, tudo com referência as situações pelas quais passa em sua vida. E também gostei dos pensamentos ou dizeres do Dr. Webb (que nunca aparece no livro) mas que Cullen nos presenteia em muitos momentos da história. É através dele que ele expressa seus mais importantes pensamentos e sentimentos.

O Dr. Webb diz que a vida é cheia de complicações e confusões, e que os seres humanos costumam ter dificuldade para enfrentá-la [...] A vida, segundo ele, não precisa ser tão ruim o tempo todo. Não precisamos nos sentir tão ansiosos com tudo. Podemos simplesmente viver. Podemos nos levantar, prever que o dia terá alguns momentos  bons e alguns momentos ruins, e então aceitar esse fato. Aceitar tudo e lidar com as coisas da melhor maneira [...] Quando perguntei a ele sobre o sentido da vida, o Dr. Webb ficou calado e me disse que a vida tem um único sentido, que ela só tem o sentido que cada um de nós dá a ela.

Gostei da capa, pois apesar de simples, simboliza bem tanto o desaparecimento de Gabriel quanto a procura pelo pássaro mencionado na história; e ainda em um fundo azul de um céu infinito de esperanças.

Fiquei impressionada com o porque de tudo e como tudo no fim faz sentido. Tudo e todos estão interligados. Quando Tudo Volta é um livro comovente. Seu suspense me prendeu, e sua leitura fácil foi gratificante. Cheio de lições e verdades, é um livro que vale a pena ser lido.