Os Deixados Para Trás Tom Perrotta
Tradução: Rubens Figueiredo
ISBN:
978-85-8057-214-8
Lançamento:
21-07-2012
Editora: Editora Intrínseca
Pontuação: ♥ ♥  
Sinopse:  O que aconteceria se, de repente, sem nenhuma explicação, pessoas simplesmente desaparecessem, sumissem no ar? É o que os perplexos moradores de Mapleton, que perderam muitos vizinhos, amigos e companheiros no evento conhecido como Partida Repentina, precisam descobrir. Desde o ocorrido nada mais está do mesmo jeito - nem casamentos, nem amizades, nem mesmo o relacionamento entre pais e filhos. O prefeito da cidade, Kevin Garvey, quer acelerar o processo de cura, trazer um sentimento de esperanças renovadas e propósito para sua comunidade traumatizada. Ainda que sua família tenha sido desfeita com o desastre: sua esposa o deixou para se juntar a um culto cujos membros fazem voto de silêncio; seu filho, Tom, abandonou a faculdade para seguir um profeta duvidoso chamado Santo Wayne; e sua filha adolescente, Jill, não é mais a dócil estudante nota dez que costumava ser. Em meio a tudo isso, Kevin ainda se vê envolvido com Nora Durst, uma mulher que perdeu toda a sua família no 14 de Outubro e continua chocada com a tragédia, apesar de se esforçar para seguir adiante e recomeçar a vida. Com emoção, inteligência e uma rara habilidade para enfatizar os problemas inerentes à vida comum, Tom Perrotta escreve um romance impressionante e provocativo sobre amor, conexão e perda.
Os Deixados Para Trás é um livro inquietante. Tem um contexto centralizado no cotidiano moderno, da sociedade do novo milênio, do século XXI. É, antes de mais nada, uma crônica. A crônica do cotidiano norte-americano. Ou, quem sabe, de todas as pessoas do mundo. Reflete bem o modo de ver e pensar das pessoas deste século. Por isso, nos deparamos com pessoas comuns, vivendo vidas comuns, buscando realizar os seus sonhos ou lutando para manter os sonhos já conquistados.

Tom Perrotta é dotado de uma escrita caprichosa. Suas descrições dos personagens e das situações e locais são muito acurados e precisos. Refletem bem a sua criatividade voltada para roteiros de seriados. O que não é de estranhar, pois ele está adaptando o livro para uma série de TV, que será exibida pela HBO, na TV paga. Por esse motivo, creio que identifiquei várias situações novelísticas em sua narrativa. Enquanto lia, eu tinha a nítida impressão de estar vendo um seriado impresso. Cada capítulo, um episódio. Um episódio cheio de lições de vida, de moral, reflexão social e religiosa. Um dos pontos principais enfocados pelo autor é o fanatismo. Algo tão comum e recorrente nos dias de hoje, tão comum de ser visto nos noticiários de todo o mundo. 

A história de Os Deixados Para Trás se passa em Mapleton. Tem como pano de fundo o Arrebatamento, ou a Partida Repentina, de várias pessoas em todo o mundo. Desta forma o Arrebatamento apregoado por várias religiões, no qual Deus transportaria fisicamente para o Céu os Escolhidos que, após os sete anos de tribulações que assolariam os que ficariam no mundo, fariam-nos herdar à Terra completamente pacificada e renovada, premiou, no livro, sujeitos de todos os tipos, credos, raças e condições sociais. Para desgosto dos mais fanáticos e ortodoxos da religião, em todo o mundo. Pois, cada religião, alega ser ela a única conduzir os eleitos ao Paraíso na Terra.
Seguindo essa ótica, Tom Perrotta usa Mapleton como um teatro para esmiúçar esse contexto. Até que ponto as pessoas que sofreram o Arreatamento são de fato merecedoras desse fenômeno, ou até que ponto as que ficaram no mundo são desmerecedoras de serem salvas.

À medida em que nos enfronhamos na leitura e com os personagens, vamos conhecendo um pouco mais da realidade por detrás desse extranho fenômeno, e descobrimos que há muita distinção entre santo e demônio, e que, na maioria das vezes, vemos lobos disfarçados de cordeiros, mas nunca o inverso.

Uma outra coisa que me chamou atenção no livro foi que, do meu ponto de vista, Tom Perrotta se inspira nos acontecimentos de 11 de setembro para compor sua narrativa: o atentado ao World Trade Center, em Nova Iorque (ou Arrebatamento em Mapleton, em 14 de outubro); a cidade abalada; as pessoas sem rumo, abatidas, desnorteadas, perplexas... A tentativa de Kevin, o prefeito recém empossado, de reerguer a moral da cidade; a busca por respostas; o sonho norte-americano desfeito; a dor por aqueles que partiram; o fanatismo levando aos extremos e às suas consequências religiosas ou sociais. Os Deixados Para Trás é um livro para se ler e refletir.

Este não é um livro de fácil digestão. Vai agradar uns e descontentar outros. Primeiro, porque o livro não tem suspense, mistério, ação, mortes ou grandes acontecimentos. É quase como uma régua numerada, linear, reta e lisa. O cotidiano das pessoas em Mapleton é o foco central do livro: seus dramas pessoais podem interessar uns e desinteressar outros. Em dado momento a leitura torna-se cansativa, justamente pela carência de momentos inusitados e surpreendentes.
A narrativa é boa, os personagens são interessantes e bem construídos, o cotidiano norte-americano é exposto com exatidão. No entanto, o livro peca pela falta de paixão do autor. Perrotta escreve, escreve, mas a gente fica sem saber exatamente do que ele quer nos convencer.

O trabalho gráfico do livro ficou muito bom. Parabéns à Editora Intrinseca pelo excelente acabamento da obra, a qualidade da diagramação, a ótima tradução do Rubens Figueiredo, a sinopse caprichosa na orelha da capa, e o ponto alto: as capas duplas. Uma capa com o sapato masculino, e  a parede em tons de rosa e a outra com o sapato feminino, e a parede em tons de azul. Ficou show! 

Apesar de alguns pontos negativos, no geral, gostei do livro.
Não me surpreendeu ou encantou, como esperava que o fizesse, pela capa e pela sinopse do livro, ou pelos comentários na contra-capa. Mesmo assim, à medida em que me envolvia com o drama particular de cada personagem, acabei me interessando pela narrativa e ela me absorveu até o final. Em geral, é um livro muito interessante, que nos faz refletir! Confira e tire suas próprias conclusões! Boa leitura!